Segundo o psiquiatra Eduardo Tancredi, diretor-médico da eCare Group e integrante do comitê técnico da Aliança para a Saúde Populacional, isso é parte de um processo que começa com uma sensação de ordem que foi quebrada pela pandemia. Uma combinação de fatores, segundo ele, afeta o bem-estar e promove essa percepção.

“É uma onda que passa pela empolgação inicial de mudanças, de ajustes, mas começa a pegar as pessoas nas adaptações do dia a dia”, diz o médico. “Nosso cérebro coloca ordem na carreira, faz planejamentos. E, de repente, chega essa desordem que faz virem à tona sintomas emocionais, insatisfações com o ambiente de trabalho, com os chefes, e ainda mistura tudo isso dentro de casa.” O novo modelo de trabalho, com cobranças exageradas, fadiga e reuniões intermináveis, é outro ingrediente para essa perda de ânimo.

Psiquiatra – Eduardo Tancredi

Para Joel Dutra, coordenador do Programa de Estudos em Gestão de Pessoas da Fundação Instituto de Administração (Progep-FIA), uma pessoa com posicionamento passivo diante de crises entende as mudanças como uma ameaça à carreira. Ele menciona estudos indicando que o brasileiro tem baixa propensão ao protagonismo no ambiente de trabalho, o que limita nossa visão em relação às possibilidades.

“Naturalmente, por conta dessa característica, esse movimento de incerteza, de caos, tem muito mais impacto. A pessoa fica em um processo de perplexidade porque nunca refletiu sobre a carreira”, afirma Dutra. Ele pondera, no entanto, que o sentimento de piora das oportunidades de crescimento não é infundado. “Em momentos de crise, naturalmente as oportunidades de desenvolvimento se reduzem. Então, é uma percepção em cima de uma realidade.”

Para ter uma atitude mais ativa frente à carreira, o coordenador orienta que todos reflitam sobre seus propósitos profissionais. “Pergunte-se: o que eu almejo de forma mais profunda? Qual contribuição eu quero oferecer?”, exemplifica.

PANDEMIA TEVE MAIS IMPACTO PARA MULHERES E MAIS JOVENS

A sensação de que a carreira profissional piorou ou piorou muito durante a pandemia é mais intensa para quem sofreu diminuição de renda, entre os que ganham até dois salários mínimos, as mulheres e também entre os mais jovens (de 18 a 24 anos). “Havia expectativa de que os jovens pudessem ter postura diferente, mas vejo que é muito mais a reação diante de crises”, diz Dutra. “Os mais jovens reagem com mais velocidade, até por conta das redes sociais. Mas, em termos de comportamento, continua o mesmo.”

Tancredi observa que algumas pessoas têm mais dificuldade para se adaptar às mudanças, outras são mais resilientes. Isso explica, em parte, esse sentimento de piora ou melhora em relação à carreira, bem como o impacto que essa percepção pode ter na saúde mental.

“A pessoa que teve de se adaptar em casa, ficou irritada, ansiosa, com palpitação e dores de cabeça, olha o futuro de uma perspectiva não otimista”, diz o psiquiatra. “Já aquelas que estão com sintomas não tão intensos podem estar dormindo mal, por exemplo. E isso também vai atrapalhar o desempenho delas no trabalho.”

O psiquiatra diz que é preciso haver sustentabilidade emocional e explica que o papel dos líderes é importante para reduzir essas repercussões negativas. “Todo mundo pensa que a síndrome de burnout tem como causa somente a empresa. Mas ela é uma combinação entre um perfil de personalidade, de pessoas que são muito exigentes, com dificuldade de lidar com frustração, e empresas que não sabem lidar com isso”, afirma Tancredi. Para ele, as organizações precisam fazer um trabalho que identifique quem está doente e previna o surgimento de problemas nos demais profissionais.

“As empresas não percebem o benefício disso e focam em ações soltas. Tem de ter um ecossistema que funcione adequadamente, que empresas sigam uma cadeia de promoção de bem-estar, prevenção e tratamento, oferecendo informação e educação.” O conceito de sustentabilidade emocional no ambiente de trabalho é reforçado aqui, porque não adianta ofertar aulas de ioga e sessões de psicoterapia se os líderes seguem exigindo jornadas exaustivas.

CULTURA ORGANIZACIONAL FAZ A DIFERENÇA

Certificada pelo Top Employers Institute como uma das cinco melhores em gestão de pessoas no País, a farmacêutica Boehringer Ingelheim do Brasil adotou medidas para se aproximar dos funcionários em meio ao trabalho remoto e garantir a segurança de quem precisou atuar presencialmente. O suporte oferecido, estendido às famílias, é parte de uma transformação organizacional que já estava em curso, conta Esteban Ziegler, diretor de Recursos Humanos.

Esteban Ziegler, diretor de Recursos Humanos da Boehringer Ingelheim

Durante a pandemia, a companhia colocou 1,6 mil funcionários administrativos e de campo em home office e ofereceu a eles encontros virtuais com especialistas em mindfulness, gestão financeira, saúde emocional, gastronomia e ioga. Também foram criados grupos de afinidades liderados pelos próprios funcionários. “Ninguém melhor para compreender as dores e as dificuldades do que eles mesmos”, acredita Ziegler.

Fonte: estadao.com.br

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