O uso da compaixão como forma de intervenção parental vem sendo explorado e o potencial de se restaurar dinâmicas familiares que propiciem um desenvolvimento infantil saudável. James N. Kirby publicou um artigo acadêmico sobre a importância de se cultivar um ambiente familiar para crianças focado na compaixão. Ele discute as formas ultrapassadas de programas de educação parental e como a compaixão pode funcionar como intervenção parental. Kirby afirma que “o estilo de educação que uma criança recebe tem impactos profundos de longo prazo na vida dessa criança. No entanto, as taxas de maus-tratos infantis em todo o mundo são altas (tanto em países desenvolvidos como nos em desenvolvimento), indicando que muitas crianças em todo o mundo estão sendo criadas em ambientes tóxicos”. (Tradução livre)

Os impactos do estilo tóxico de educação no desenvolvimento infantil:

As características distintivas dos ambientes estimulantes incluem:

Apesar de já se saber dos efeitos da educação infantil no desenvolvimento, estudos mostram que muitas crianças em todo o mundo continuam a ser criadas em ambientes caracterizados por punição, abuso emocional e físico, e negligência. Kirby cita o exemplo de um estudo feito no Brasil com o objetivo de estimar as taxas de prevalência de punição corporal onde se observou uma taxa de 10,1% para punição física severa (por exemplo, sufocamento, chacoalhar crianças com menos de 2 anos de idade, pontapés e espancamento) e 75,3% para punição física menos grave (por exemplo, palmada com a mão, palmada com objeto, puxão da orelha). Nos Estados Unidos, um estudo de maus-tratos infantis descobriu que pelo menos 10% dos pais utilizavam de um objeto, como uma colher ou cinto, de forma frequente ou muito frequente para disciplinar o mau comportamento das crianças.

Pesquisas mostram que bater é uma forma ineficaz de se educar crianças. Ao longo prazo, a punição corporal impacta negativamente o apego entre pais e filhos. Países como a Dinamarca, Alemanha, Israel, Suécia, e Romênia implementaram legislação para proibir palmadas e punições corporais a fim de reduzir possíveis maus-tratos à crianças.

Os três principais fatores de risco para maus-tratos infantis são:

Kirby questiona qual seria a forma de se facilitar a mudança do paradigma da disciplina infantil. Ele acredita que programas de criação dos filhos são importantes. Porem, são excessivamente focados na redução de resultados negativos. Enquanto deveriam focar em fortalecer comportamentos verbais e não verbais amigáveis e no treinamento da mente compassiva.

Os estilos parentais são classificados por Maccoby e Martin, e são eles:

Uma pesquisa recente examinou a associação entre estilos de paternidade e competência social entre adolescentes espanhóis, norte-americanos, alemães e brasileiros em famílias de classe média. O estudo teve 2.455 adolescentes e examinou estilo parental e resultados de socialização medindo autoestima e internalização de valores. Surpreendentemente, adolescentes de famílias indulgentes obtiveram pontuações iguais ou superiores em bem-estar do que aqueles de famílias autoritárias. Adolescentes com famílias negligentes e autoritárias demonstraram baixos níveis de autoestima. Além disso, a paternidade indulgente superou a paternidade autoritária nos domínios acadêmico, emocional e da autoestima familiar. No entanto, apesar desses importantes descobertas destacando a importância de estilos parentais afetuosos e indulgentes, a maioria dos programas parentais baseados em evidências promove o desenvolvimento do estilo Autoritativo. Kirby discute a eficácia da maioria dos programas de educação parental em reduzir práticas de educação coercitivas e comportamento infantil problemático, porem existe uma falta de estudos para avaliar o potencial desses programas em promover interações sociais positivas, como gratidão, empatia e demonstração de gentileza.

A teoria Polivegal de Porges é mencionado no artigo explicando o mecanismo fisiológico indicador do estresse no cérebro humano. Onde a ativação do sistema nervoso parassimpático ajuda na regulação da resposta do estresse e é chamado de fight/flight (briga/fuga) no sistema nervoso autônomo simpático quando nos encontramos em situação de estresse. Mostrou-se que esse mecanismo promove auto regulação emocional por meio da proximidade com os outros, sentimento de pertencimento, e comportamento pró-social. A influência do sistema parassimpático na fisiologia é frequentemente medida usando o tom vagal, que é uma medida da atividade que o nervo vagal exerce. Já se sabe que a força do tom vagal influencia nas nossas emoções, saúde e bem-estar. De fato, terapias que visam abordar o sofrimento do cliente estão começando a reconhecer que deve ser ancorada em uma abordagem integrativa, evolutiva, contextual e biopsicossocial para que sejam efetivas em aliviar o sofrimento.

Existem alguns modelos específicos de psicoterapia que agora estão adotando esses novos insights. Kirby fala da Terapia com Foco na Compaixão (CFT), que visa especificamente processos fisiológicos (por exemplo, expressão facial, tom vocal, toque), a fim de ajudar a estimular o tom vagal para ajudar na regulação de emoções e melhorar o bem-estar psicológico. Ele diz que através da ativação de processos fisiológica, pode-se melhorar a variabilidade da frequência cardíaca (VFC) – um indicador chave da atividade regulatória vagal. Quando os humanos estão sob ameaça ou estresse, a flexibilidade do tom vagal reduz devido ao aumento da demanda no sistema simpático (particularmente a ativação do sistema límbico), o que reduz a capacidade de acesso ao córtex pré-frontal e pensamento lateral com uma visão empática.

Kirby discute a importância que essas percepções sobre como a fisiologia influencia a reatividade emocional e o comportamento têm sobre como consideramos o tipo de educação que nossos filhos recebem. Ele argumenta que promover ambientes seguros, previsíveis e protegidos para crianças é crucial para o desenvolvimento infantil saudável. Observa também que a prevenção do sofrimento está associada á capacidade dos pais em serem compassivos. Isso é especialmente importante para a infância porque um pai que não é sensível e empático às necessidades de seu filho pode causar muito sofrimento. Por exemplo, podem ser causado danos neurológicos ao cérebro em desenvolvimento de bebês que choram sozinhos regularmente e, em casos extremos, crianças não alimentadas tendem a morrer de fome (uma ocorrência muito comum em países em desenvolvimento – ambos exemplos de negligência dos pais. Em contra partida, a abordagem da educação parental com foco na compaixão se concentra em uma variedade de competências relacionadas com inteligência social, como empatia, tolerância ao sofrimento e clareza de intenção no estilo parental. A paternidade focada na compaixão tem o potencial de ajudar a desestigmatizar as experiências parentais, ajudando os pais em suas experiências gratificantes e às vezes desafiadoras de criar os filhos. O benefício adicional de uma abordagem parental centrada na compaixão é a esperança de também criar filhos compassivos.

Giovana Lippi

Referência

Kirby, J. N. (2020). Nurturing Family Environments for Children: Compassion-Focused Parenting as a Form of Parenting Intervention. Education Sciences, 10(1), 3. https://doi.org/10.3390/educsci10010003

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *